Denúncia em GO revela ameaças, falsa identificação como policiais, extorsão contra família. Foragido está na mira
Maria Clara Silva l Diario de Cuiaba
A atuação de grupos investigados por crimes ligados ao crime organizado em Mato Grosso começa a revelar uma característica que preocupa as forças de segurança: a expansão das ações para outros estados.
Os grupos têm métodos que vão além das ameaças e passam a envolver extorsão, constrangimento de familiares, falsa identificação como policiais e tentativas de obtenção de recursos para financiar a fuga de investigados.
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O caso mais recente envolve o empresário cuiabano Maike Koseki de Capua, considerado foragido da Justiça de Mato Grosso, desde a deflagração da Operação Autoritas.
Além da investigação conduzida pela Polícia Civil mato-grossense por supostas ameaças contra um delegado e sua esposa, o empresário passou a ser alvo de uma nova denúncia registrada em Goiânia (GO), onde é acusado de liderar uma ação de intimidação contra uma empresária e seus familiares.
Segundo o boletim de ocorrência, o grupo abordou o pai da empresária — um idoso — e a filha dela, de apenas nove anos, em uma academia de artes marciais.
Os homens teriam se apresentado como policiais e informado que realizavam uma operação.
Em seguida, impediram que ambos deixassem o local e os conduziram até o condomínio onde a mulher reside.
A vítima relatou que recebeu uma ligação informando que seus familiares estavam sob a “custódia” do grupo e que somente seriam liberados após uma conversa.
Ao chegar ao condomínio, encontrou cerca de sete homens que, segundo seu depoimento, exigiam que assumisse uma dívida atribuída ao ex-marido e assinasse documentos de transferência de bens.
Durante toda a abordagem, afirma a empresária, as ameaças eram constantes.
Um dos integrantes do grupo teria dito fazer parte do Comando Vermelho, enquanto outros mencionavam repetidamente sua filha, como forma de pressioná-la psicologicamente.
Temendo pela segurança da família, ela afirmou ter deixado a residência ainda naquela noite para buscar abrigo em outro local.
As investigações também apontam que a atuação do grupo não teria cessado após a deflagração da Operação Autoritas.
Conforme relato encaminhado ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso, integrantes voltaram ao condomínio dias depois.
A suspeita da vítima é de que os envolvidos buscavam levantar recursos financeiros para viabilizar uma eventual fuga internacional do empresário, hipótese que ainda deverá ser apurada pelas autoridades.
ATUAÇÃO INTERESTADAL – Para investigadores, o caso evidencia uma característica cada vez mais presente nas organizações criminosas: a capacidade de atuar simultaneamente em diferentes unidades da Federação.
A expansão das atividades é facilitada pelo uso de aplicativos de mensagens, redes de colaboradores, deslocamentos rápidos entre estados e pelo acesso a informações sobre vítimas e patrimônio.
Com isso, disputas iniciadas em Mato Grosso passam a produzir consequências em outras regiões do país, dificultando o trabalho das polícias estaduais e exigindo maior integração entre as forças de segurança.
Outro aspecto que chama atenção é a utilização de estratégias destinadas a conferir aparência de legalidade às abordagens.
A falsa identificação como policiais, segundo especialistas, aumenta o poder de intimidação e reduz a resistência das vítimas, permitindo que o grupo exerça controle psicológico antes mesmo das ameaças explícitas.
DINHEIRO PARA MANTER A ORGANIZAÇÃO – Além da violência, investigadores destacam que a cobrança de dívidas e a extorsão são importantes fontes de financiamento para grupos criminosos.
Em vez de recorrer ao Poder Judiciário, integrantes utilizam intimidação, violência e constrangimento para exigir pagamentos, ampliar patrimônio e manter recursos destinados à estrutura da organização criminosa.
No caso investigado em Goiás, a suspeita de que integrantes buscavam dinheiro para facilitar uma possível fuga internacional do principal investigado reforça a hipótese de que as ações extrapolam conflitos pessoais e passam a integrar uma estratégia de preservação da própria organização.
A apuração desse ponto ainda depende do avanço das investigações conduzidas pelas autoridades competentes.
Enquanto o habeas corpus do empresário aguarda análise pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Maike Koseki de Capua continua foragido da Justiça.
Paralelamente, a denúncia registrada em Goiás amplia o alcance das investigações e pode abrir uma nova frente de responsabilização criminal, desta vez por fatos ocorridos fora do Estado.