Alvo da ação era a companheira de policial militar que atirou e acabou preso em flagrante. Um agente da PF também foi ferido
Adriana Irion l GZH
Os policiais federais baleados durante operação em Passo Fundo, no norte do Estado, na quinta-feira (2), foram atingidos depois de arrombarem a porta de um quarto do apartamento de uma empresária investigada pela Polícia Federal.
Ela estava no cômodo com o companheiro, Daniel Machado Figueiró, policial militar que atirou com uma pistola calibre .40 mm contra o delegado federal Michel Brasil Saliba e um agente. Saliba, 39 anos, morreu na madrugada desta sexta-feira (3). O PM foi preso em flagrante.
O delegado e o agente foram cumprir mandado de busca e apreensão no imóvel, no bairro Vila Rodrigues. Depois de não serem atendidos na entrada do apartamento, arrombaram a porta. Teriam também batido no quarto e se identificado como policiais. Sem resposta, romperam mais esse obstáculo. Foi quando o PM atirou.
Os federais usavam coletes à prova de balas. Um dos disparos chegou a acertar a proteção de Saliba, mas ele foi atingido também em partes não protegidas. Foi socorrido por colegas, mas morreu no Hospital São Vicente de Paulo. O outro agente atingido teve os tiros bloqueados pelo colete.
A Brigada Militar (BM) abriu investigação interna para apurar a conduta do policial militar, que ingressou na corporação em 2021 e atuava no 3º Regimento de Polícia Montada. O histórico funcional dele não tem registro de qualquer problema ou punição.
PM estava em licença para tratar de assuntos particulares
O policial militar estava em licença desde maio para tratar de assuntos particulares. Apesar do afastamento, ele pode ter infringido regras de comportamento previstas no Estatuto da BM. Também por ser militar e ter treinamento e experiência para ocorrências do tipo, isso deve ser considerado na análise sobre a forma como ele reagiu.
Outra verificação que a BM fará é sobre possível envolvimento do PM no esquema investigado pela PF. Há informação de que ele estaria envolvido com atividade em uma loja de revenda de carros. Inicialmente, ele não era alvo da apuração da Polícia Federal, que tinha como objetivo desarticular um sistema financeiro paralelo utilizado para sustentar um esquema de contrabando de mercadorias provenientes de Miami, nos Estados Unidos.
O alvo da operação era a companheira de Figueiró, que é dona de uma revenda de carros. Ela estaria sob suspeita de lavagem de dinheiro. Eles tinham um relacionamento havia quatro anos. Um filho dela, morador de Santana do Livramento, também seria investigado no esquema.
Este tipo de licença pode durar até dois anos. O servidor tem que entregar a carteira funcional e a arma da corporação. Também fica sem salário no período do afastamento. Como policial da ativa, Figueiró não poderia ter outra atividade. A pistola que ele usou para atirar contra o delegado e o agente da PF foi comprada legalmente, segundo informação da BM, e estava registrada em nome dele.
As circunstâncias da ação e da morte do delegado estão sendo investigadas pela PF. As armas relacionadas à ocorrência devem passar por perícia.
Operação da PF apurava contrabando e lavagem de dinheiro
A Operação EZQ 25:17 tinha objetivo de desarticular um sistema financeiro paralelo utilizado para sustentar um esquema de contrabando de mercadorias provenientes de Miami, nos Estados Unidos
Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão, expedidas 56 ordens de sequestro de imóveis e determinadas medidas de bloqueio de contas bancárias de 38 pessoas físicas e jurídicas investigadas
Os valores bloqueados podem alcançar R$ 28 milhões
As medidas foram autorizadas pela 11ª Vara Federal de Porto Alegre
As investigações apontam a atuação de uma organização criminosa que teria origem em Santana do Livramento e seria responsável por coordenar a internalização irregular de mercadorias no Brasil por meio da fronteira com o Uruguai
Segundo apurado, parte do grupo atuava em Miami, de onde partiam os produtos destinados ao esquema
Contrapontos
A defesa de Figueiró, composta pelos advogados José Paulo Schneider e Ricardo Almeida, afirmou em nota (leia íntegra abaixo) que o seu cliente não identificou quem estava arrombando a porta e que o policial militar agiu instintivamente.
A defesa da empresária investigada emitiu nota (leia abaixo) na manhã desta sexta-feira (3). Segundo o posicionamento assinado pelos advogados Maurício Batista da Silva, Tábata Luiza Haag Bitencourt Pasquali, Pedro Henrique Bitencourt Pasquali e Arthur Feltrin Milani, a defesa técnica informa que vai se “manifestar de forma completa e tecnicamente fundamentada tão logo lhe seja franqueado o acesso integral à investigação, em respeito ao contraditório e à ampla defesa.”
O que diz a defesa do policial militar:
“A defesa técnica do Policial Militar lamenta o trágico desfecho desta ocorrência. Registra-se, ademais, o mais sincero respeito por toda a corporação da Polícia Federal.
Explica-se que o Policial Militar foi afastado da suas funções a pedido próprio, para tratar de interesse particular, envolvendo situação de saúde de sua genitora.
Registra-se que, segundo o relato do Policial Militar, ele não teria identificado as pessoas que arrombaram a porta de seu apartamento como Policiais, tendo reagido instintivamente para proteção própria e de sua companheira.
Após ter ciência de que se tratava de agentes da Polícia Federal, o Policial Militar buscou prestar todo o apoio necessário para o salvamento dos agentes federais.
Consigna-se, ainda, que a real dinâmica do ocorrido está sendo apurada pela Polícia Federal, não sendo produtivas, neste momento, quaisquer ilações e afirmações apressadas sobre o que realmente aconteceu.
Reforça-se, por fim, a necessidade de que as investigações transcorram dentro de um ambiente de extrema legalidade, imparcialidade e transparência.”
O que diz a defesa da empresária investigada:
“A defesa da empresária manifesta profundo pesar pelo falecimento do Delegado da Polícia Federal e solidariza-se com seus familiares, amigos e colegas de instituição neste momento de dor.
Esclarece que a empresária jamais imaginou que a diligência em sua residência estivesse sendo executada por policiais federais no âmbito de operação relacionada à apuração de suposto contrabando internacional. Conforme já relatado, ela vinha sofrendo ameaças em razão de questões ligadas à sua atividade empresarial, circunstância previamente comunicada ao seu companheiro, policial militar, o qual, diante da dinâmica dos fatos e na crença de estar diante de situação de risco iminente, reagiu de forma enérgica.
A defesa técnica informa que, até o presente momento, não teve acesso aos autos do procedimento investigativo que originou o mandado de busca e apreensão, tampouco aos elementos de convicção que fundamentaram a medida. Por essa razão, reserva-se o direito de se manifestar de forma completa e tecnicamente fundamentada tão logo lhe seja franqueado o acesso integral à investigação, em respeito ao contraditório e à ampla defesa.
A empresária reafirma, por fim, que todos os seus negócios e atividades empresariais são pautados pela estrita observância à legalidade, e reitera seu compromisso de colaborar integralmente com a Justiça, permanecendo à inteira disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários à completa apuração dos fatos. Renova, ainda, sua solidariedade diante da irreparável perda do Delegado da Polícia Federal.”