Cientistas encontram pegadas de 1,4 milhão de anos às margens de um lago e confirmam altura surreal de ancestrais

PUBLICIDADE

Letícia Florenço l Acorda Cidade

Uma descoberta realizada às margens do Lago Turkana, no Quênia, está levando cientistas a revisar conceitos importantes sobre a evolução humana.

Um conjunto de pegadas fossilizadas, preservadas por cerca de 1,43 milhão de anos, revelou que alguns ancestrais do homem moderno eram muito maiores do que se imaginava e possuíam um comportamento social mais complexo do que apontavam as hipóteses anteriores.

Os resultados foram apresentados em um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Segundo os pesquisadores, as marcas deixadas na antiga margem do lago oferecem informações únicas sobre a anatomia, a locomoção e a convivência entre espécies que habitaram a África durante o Pleistoceno Inferior.

Pegadas foram preservadas por condições naturais

As marcas foram encontradas em sedimentos que, há mais de um milhão de anos, correspondiam a uma área lamacenta nas margens do Lago Turkana.

Pouco tempo após serem deixadas, as pegadas foram cobertas por sedimentos e cinzas vulcânicas, processo que garantiu sua preservação ao longo do tempo.

A equipe utilizou justamente essas camadas de cinzas para determinar a idade do sítio arqueológico.

A análise confirmou que os rastros têm aproximadamente 1,43 milhão de anos, tornando o local um dos registros mais importantes já encontrados sobre a movimentação de antigos hominídeos.

Região era ocupada por diferentes espécies

Na época em que as pegadas foram produzidas, o Lago Turkana era cercado por um ambiente rico em fauna e vegetação. A região era frequentada por crocodilos, elefantes, hipopótamos e outros grandes animais, além de diferentes espécies de ancestrais humanos.

Entre elas estavam o Paranthropus boisei, conhecido pela estrutura corporal robusta e pelos dentes adaptados à mastigação de vegetais duros, e o Homo erectus, considerado por muitos pesquisadores um dos principais ancestrais diretos da espécie humana atual.

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que essas duas espécies coexistiram na região durante centenas de milhares de anos. O novo estudo reforça essa convivência ao revelar novos rastros preservados no mesmo ambiente.

Estimativa surpreende pela altura dos indivíduos

O aspecto que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a análise das pegadas atribuídas ao Paranthropus boisei.

Com base no comprimento das passadas, na profundidade das marcas e em modelos biomecânicos, os cientistas estimaram que o indivíduo poderia atingir até 1,80 metro de altura e pesar cerca de 75 quilos.

A estimativa contrasta com reconstruções anteriores, que retratavam essa espécie como significativamente menor. Caso novas pesquisas confirmem esses resultados, será necessário revisar parte do conhecimento acumulado sobre a anatomia desse hominídeo.

Forma de caminhar era semelhante à humana

As pegadas também revelam detalhes sobre a locomoção desses ancestrais.

Segundo os pesquisadores, o padrão observado indica uma caminhada eficiente, com apoio dos pés e distribuição de peso semelhantes aos encontrados em seres humanos modernos.

As marcas sugerem que esses hominídeos já apresentavam adaptações avançadas para o deslocamento sobre duas pernas, característica considerada decisiva para a evolução humana.

Esse tipo de evidência dificilmente poderia ser obtido apenas por meio da análise de fósseis ósseos.

Rastros apontam possível deslocamento em grupo

Outro dado relevante observado pelos cientistas foi a presença de diversas pegadas seguindo a mesma direção, atribuídas a indivíduos adultos.

A organização dos rastros indica que esses hominídeos provavelmente caminhavam em grupo, comportamento que pode ter representado uma estratégia de sobrevivência em um ambiente ocupado por grandes predadores.

Para os autores do estudo, a descoberta reforça a hipótese de que essas populações apresentavam formas de organização social mais elaboradas do que se acreditava anteriormente.

Pegadas ajudam a reconstruir o cotidiano dos hominídeos

Diferentemente dos fósseis, que revelam principalmente aspectos anatômicos, as pegadas registram momentos específicos da vida desses indivíduos.

A partir delas, é possível estimar características como velocidade da caminhada, direção do deslocamento, tamanho corporal e até possíveis interações entre diferentes espécies.

Por esse motivo, sítios arqueológicos com rastros fossilizados são considerados extremamente valiosos para compreender como viviam os primeiros representantes da linhagem humana.

Lago Turkana continua revelando novos capítulos da evolução

O sítio faz parte de um amplo conjunto de pegadas descobertas ao longo da margem leste do Lago Turkana. Os registros foram produzidos em diferentes períodos ao longo de mais de 100 mil anos, formando um dos maiores acervos de rastros de hominídeos já encontrados.

Os pesquisadores acreditam que novas escavações poderão ampliar ainda mais o conhecimento sobre a evolução humana e esclarecer como diferentes espécies compartilharam o mesmo ambiente durante parte significativa da pré-história.

Mais recentes

PUBLICIDADE