WT teria usado sete celulares para comandar caixa do CV em ‘cela de segurança máxima’

PUBLICIDADE

Mensagens indicam interferência em planilhas, repasses e até sanções internas do Comando Vermelho

Estadão Mato Grosso

Paulo Witer Farias Paelo, conhecido como “WT”, teria continuado a administrar as finanças do Comando Vermelho mesmo preso em uma cela de segurança máxima da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá. Segundo a Polícia Civil, o investigado usou sete celulares em seis meses para fazer cobranças, controlar planilhas e determinar o destino de valores arrecadados pela facção.

Apontado como tesoureiro e uma das principais lideranças financeiras do grupo criminoso, WT voltou a ter a prisão preventiva decretada durante a Operação Replay, deflagrada nesta quinta-feira (30). A nova investigação identificou imóveis e veículos avaliados em aproximadamente R$ 17,2 milhões, além de um pedido separado de bloqueio de até R$ 15,3 milhões.

Os dois valores correspondem a medidas diferentes e não representam, juntos, uma quantia efetivamente recuperada. O primeiro se refere aos bens localizados pela investigação. O segundo está relacionado à contabilidade atribuída ao grupo.

A atuação de WT já havia sido investigada na Operação Apito Final, realizada em abril de 2024 pela Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO). Na época, a Polícia Civil apontou que o time de futebol amador “Amigos do WT” era usado para movimentar e ocultar dinheiro da facção.

WT foi preso em Maceió, Alagoas, em 29 de março de 2024. Mesmo atrás das grades, porém, teria mantido contato com integrantes do grupo e permanecido no comando das movimentações financeiras.

De acordo com a investigação, ele cobrava os chamados “fechamentos”, orientava correções em planilhas e decidia para onde os recursos deveriam ser enviados. Em uma das movimentações analisadas, os policiais identificaram referência ao “congelamento” de R$ 14 milhões.

As conversas também continham as expressões “SS” e “Chapéu”, associadas pelos investigadores aos apelidos “Sansão” e “Chapa”. Os nomes seriam referências a Sandro Silva Rabelo, o Sandro Louco ou Sansão, e Renildo Silva Rios, o Chapa, apontados como presidente e vice-presidente do Comando Vermelho em Mato Grosso.

Sete celulares em seis meses

Celulares foram apreendidos em outubro de 2025 no raio 9 da PCE, onde Sandro Louco também está preso. Um dos aparelhos atribuídos a WT estava conectado aos perfis e às redes sociais dele, o que permitia a manutenção dos contatos externos.

A análise técnica identificou que, entre novembro de 2025 e março de 2026, um mesmo chip foi inserido em sete telefones diferentes. A descoberta é um dos fundamentos usados no pedido para que o investigado seja transferido a uma penitenciária federal.

Para a Polícia Civil, as mensagens mostram que a influência de WT não se limitava ao controle do dinheiro. Ele também teria interferido nas punições internas da organização criminosa.

Em uma das conversas, WT teria ordenado que Emerson Ferreira Lima, conhecido como “Gordão”, “Gordinho” ou “GD”, aplicasse uma punição contra um integrante chamado de “Xereca”. A medida consistiria na proibição de consumir bebida alcoólica durante três meses, após ele supostamente sacar uma arma em uma festa.

Conforme a investigação, a decisão de WT teria se sobreposto à determinação do chamado “quadro” disciplinar da facção. Para a Polícia Civil, isso indica que ele também exercia poder sobre assuntos internos do grupo.

Os dados encontrados nos aparelhos ainda incluíam fotografias de armas de fogo, imóveis, selfies de WT e informações de localização compatíveis com os bens identificados pelos investigadores.

Patrimônio de luxo

A Operação Replay foi estruturada a partir da análise de dados telemáticos recolhidos nas fases anteriores da investigação. Os relatórios apontaram a existência de um núcleo financeiro próprio, operadores fora das unidades prisionais, uso de contas bancárias de terceiros e aquisição de patrimônio em nome de pessoas que não teriam renda compatível.

Os imóveis e veículos atingidos pelas decisões judiciais foram avaliados em R$ 17.287.600. Somente as propriedades somam cerca de R$ 16,68 milhões.

Entre os bens relacionados estão um apartamento de luxo em Itapema, avaliado em R$ 3 milhões; um apartamento de alto padrão em Balneário Camboriú, estimado em R$ 6 milhões; uma casa em condomínio fechado na região de Camboriú, também avaliada em R$ 6 milhões; e uma residência de alto padrão em Cuiabá, estimada em R$ 1,5 milhão.

Três terrenos, avaliados conjuntamente em aproximadamente R$ 180 mil, também foram alcançados pelas medidas. Já os quatro veículos ligados aos investigados ou a terceiros foram estimados em cerca de R$ 607,6 mil.

Além do sequestro e da indisponibilidade desses bens, a Justiça autorizou prisões preventivas, buscas pessoais, domiciliares e veiculares, acesso ao conteúdo de dispositivos eletrônicos e bloqueio de ativos financeiros.

Segundo a Polícia Civil, o objetivo é impedir que imóveis, veículos e recursos apontados como provenientes do crime sejam vendidos, transferidos ou novamente utilizados para financiar a reorganização do grupo.

Mais recentes

PUBLICIDADE