Operação Replay aponta que líder do Comando Vermelho utilizou sete aparelhos diferentes, em apenas seis meses
Maria Clara Silva l Diario de Cuiaba
A descoberta de que o líder do núcleo financeiro do Comando Vermelho (CV) em Mato Grosso utilizou sete aparelhos celulares diferentes, enquanto permanecia custodiado em uma ala de segurança máxima da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, reacendeu um dos principais desafios do sistema prisional brasileiro.
Trata-se de impedir que organizações criminosas continuem sendo comandadas de dentro das cadeias.
Leia também:
Operação prende assessor de vereador e advogada de esquema do CV em MT
Operação mira esquema de lavagem do CV em MT, SC e RJ
A informação foi revelada durante a Operação Replay, deflagrada pela Polícia Civil, que identificou que o mesmo chip telefônico atribuído a Paulo Witter Farias, conhecido como WT, foi utilizado em sete aparelhos distintos entre setembro de 2025 e março de 2026.
Segundo a investigação, a troca constante de dispositivos permitiu manter uma rede de comunicação clandestina, mesmo sob rígido regime de segurança.

A análise dos dados telemáticos mostrou que, por meio dessas comunicações, WT continuava expedindo ordens relacionadas ao funcionamento financeiro da facção.
As mensagens registravam cobranças de arrecadação, determinação de recolhimento de valores, conferência de planilhas, orientação de operadores em liberdade e acompanhamento da movimentação patrimonial da organização criminosa.
Segundo o delegado Victor Hugo Caetano, da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), a prisão reduziu a capacidade operacional do investigado, mas não interrompeu seu papel de liderança.
“Pelos dados telemáticos, conseguimos evidenciar que ele continuou essa prática e essa conduta de lavagem de dinheiro e de outros crimes”, afirmou o delegado durante a apresentação da operação.
COMUNICAÇÃO É PEÇA CENTRAL – Para investigadores, o telefone celular tornou-se o principal instrumento de comando das organizações criminosas instaladas dentro dos presídios.
É por meio dele que lideranças conseguem manter contato permanente com integrantes em liberdade, autorizar movimentações financeiras, cobrar mensalidades da facção, resolver conflitos internos e coordenar ações criminosas sem necessidade de contato presencial.
No caso da Operação Replay, a Polícia Civil afirma que a continuidade da comunicação permitiu que a estrutura financeira do Comando Vermelho permanecesse ativa mesmo após a prisão de seu principal operador.
Os relatórios técnicos apontam que a organização mantinha divisão de tarefas, núcleo financeiro próprio, operadores externos, uso de contas de terceiros e aquisição de patrimônio em nome de “laranjas”.
TROCA CONSTANTE DE APARELHOS – Um dos aspectos que chamou a atenção dos investigadores foi a estratégia de alternância dos celulares.
Embora o chip telefônico permanecesse o mesmo, ele era inserido sucessivamente em aparelhos diferentes, dificultando apreensões, bloqueios e rastreamento pelas forças de segurança.
Segundo a Polícia Civil, essa prática demonstra adaptação permanente das organizações criminosas aos mecanismos de fiscalização existentes dentro do sistema penitenciário.
DESAFIO PERMANENTE – O caso reforça um problema recorrente enfrentado pelos sistemas prisionais em todo o país: impedir a entrada e o uso de celulares por detentos considerados lideranças de facções.
No caso investigado pela Operação Replay, as provas indicam que a comunicação clandestina foi suficiente para manter ativa uma estrutura que, segundo a Polícia Civil, movimentava patrimônio milionário e continuava praticando lavagem de dinheiro mesmo após operações anteriores e a prisão de seus principais integrantes.
Embora as investigações demonstrem como a comunicação ocorreu, o relatório da Operação Replay não esclarece de que forma os aparelhos chegaram ao interior da unidade prisional nem quais eventuais falhas permitiram sua utilização. Esses pontos permanecem sob investigação e não são detalhados no material analisado.