Argentina acusa Reino Unido de incursão militar ilegal após passagem do HMS Medway por suas águas

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Buenos Aires apresentou protesto formal contra o trânsito do patrulheiro britânico em direção ao Chile; Londres afirma que o navio realizava uma missão logística e exerceu o direito de passagem inocente previsto no Direito do Mar

Forças de Defesa

BUENOS AIRES — O governo argentino apresentou uma nota formal de protesto ao Reino Unido pela passagem do navio patrulha oceânico HMS

Medway por águas que Buenos Aires considera parte de seu mar territorial, classificando o movimento como uma “incursão militar britânica” não autorizada.

A reclamação diplomática foi entregue à Embaixada britânica em Buenos Aires em 13 de julho, por determinação do ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno. O comunicado foi divulgado publicamente dois dias depois, em meio à renovada repercussão da disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas.

Segundo a chancelaria argentina, os movimentos do navio não foram devidamente comunicados de acordo com os entendimentos bilaterais de confiança militar estabelecidos entre os dois países depois da Guerra das Malvinas.

Argentina denuncia trânsito pelo mar territorial

O governo argentino afirmou que o HMS Medway, descrito no comunicado como um navio “ilegalmente destacado nas Ilhas Malvinas”, navegou pelo mar territorial do país durante seu deslocamento em direção à costa continental sul-americana.

A nota oficial não divulgou as coordenadas completas da rota nem especificou o ponto exato no qual o navio teria ingressado nas águas territoriais argentinas. Informações disponíveis indicam, porém, que o patrulheiro deixou as Malvinas no início de julho e navegou ao longo das costas das províncias de Santa Cruz e da Terra do Fogo antes de seguir para Punta Arenas, no Chile.

“O governo argentino rejeita firmemente esta incursão militar britânica em espaços sob jurisdição argentina”, afirmou a chancelaria.

Buenos Aires acrescentou que o episódio faria parte de uma política britânica de ações unilaterais incompatíveis com as resoluções das Nações Unidas e com a obrigação de evitar mudanças na situação das ilhas enquanto a disputa de soberania permanecer sem solução.

A presença do navio já havia sido denunciada anteriormente pelo governo provincial da Terra do Fogo, que considera as Malvinas, a Geórgia do Sul, as Ilhas Sandwich do Sul e as águas adjacentes parte de sua jurisdição. Autoridades locais pressionavam o governo federal argentino para que apresentasse uma reclamação formal a Londres.

Reino Unido diz que missão era logística

O Ministério da Defesa britânico rejeitou a acusação e informou que o HMS Medway realizou uma visita logística de rotina a Punta Arenas entre 5 e 8 de julho.

Segundo Londres, o patrulheiro transportava mantimentos e suprimentos destinados a apoiar as atividades do British Antarctic Survey, instituição responsável por parte das pesquisas científicas britânicas na Antártida.

O governo britânico declarou que a rota entre as Malvinas e o Chile foi escolhida por ser a alternativa direta mais segura e viável, levando em consideração as condições meteorológicas e as necessidades operacionais.

Londres também sustenta que o deslocamento havia sido comunicado antecipadamente às autoridades argentinas, versão que contradiz a declaração oficial de Buenos Aires de que os mecanismos bilaterais de notificação não foram devidamente observados.

O navio atracou no cais Arturo Prat, em Punta Arenas, em sua primeira visita ao porto chileno. A escala foi apresentada como uma operação de reabastecimento e apoio logístico, sem indicação pública de exercícios militares nas águas chilenas.

Divergência envolve acordos de confiança militar

A reclamação argentina não se baseia exclusivamente na presença física de um navio de guerra estrangeiro em seu mar territorial.

Buenos Aires acusa o Reino Unido de violar os mecanismos de confiança estabelecidos pelas declarações conjuntas assinadas depois da restauração das relações diplomáticas entre os dois países, interrompidas após a guerra de 1982.

A chancelaria mencionou especificamente a Declaração Conjunta de 25 de setembro de 1991, que substituiu anexos do acordo firmado em Madri em fevereiro de 1990. Os entendimentos preveem comunicações e notificações sobre determinados movimentos e atividades militares no Atlântico Sul, com o objetivo de reduzir o risco de incidentes ou interpretações equivocadas.

Para o governo argentino, ainda que Londres considerasse a viagem uma missão logística, o caráter militar do HMS Medway exigia o cumprimento integral desses procedimentos.

A posição britânica é que as autoridades argentinas foram informadas e que a travessia ocorreu dentro das normas internacionais de navegação. Até o momento, os dois governos não divulgaram publicamente as mensagens diplomáticas e militares trocadas antes da viagem, impossibilitando uma verificação independente do conteúdo e do momento das comunicações.

Londres invoca o direito de passagem inocente

O Reino Unido também fundamenta sua posição na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

O artigo 17 da convenção estabelece que navios de todos os Estados possuem o direito de realizar passagem inocente pelo mar territorial de outro país. Esse regime também se aplica a navios militares, desde que a navegação seja contínua, rápida e não represente ameaça à paz, à ordem ou à segurança do Estado costeiro.

A passagem deixa de ser considerada inocente quando o navio realiza atividades como exercícios com armas, operações de inteligência contra o país costeiro, lançamento de aeronaves ou dispositivos militares, pesquisas não autorizadas ou atos que não estejam diretamente relacionados ao trânsito.

Londres afirma que o HMS Medway apenas atravessou as águas argentinas em direção ao Estreito de Magalhães e a Punta Arenas, sem realizar qualquer atividade militar durante o percurso.

A Argentina, por sua vez, não declarou que o patrulheiro tenha utilizado armas ou executado exercícios. Sua acusação concentra-se na alegada ausência de notificação, no descumprimento dos entendimentos bilaterais e no fato de o navio estar permanentemente baseado nas ilhas cuja soberania é disputada.

Portanto, a controvérsia possui dois planos distintos: o direito geral de navegação previsto na Convenção do Mar e as obrigações políticas e militares específicas assumidas bilateralmente por Argentina e Reino Unido.

O HMS Medway, numeral de costado P223, é um patrulheiro oceânico da classe River, configuração Batch 2. Construído pela BAE Systems na Escócia, o navio foi incorporado à Royal Navy em 2019.

A embarcação mede aproximadamente 90 metros, desloca cerca de 2 mil toneladas e possui como armamento principal um canhão automático de 30 mm. Seu convoo pode receber helicópteros de médio porte, embora o navio não disponha de hangar permanente.

Desde janeiro de 2026, o Medway é o navio de patrulha britânico permanentemente destacado nas Malvinas, função anteriormente exercida pelo HMS Forth. Suas tarefas incluem vigilância marítima, proteção pesqueira, apoio logístico, presença naval e operações de segurança nas águas administradas pelo governo britânico das ilhas.

O navio não é um combatente de superfície comparável a uma fragata ou destróier. Sua função principal é policial e de patrulhamento, embora sua presença simbolize a manutenção do controle militar britânico sobre o arquipélago.

Antes da viagem ao Chile, o HMS Medway havia realizado uma missão humanitária de longa distância até Tristão da Cunha, transportando equipes e equipamentos relacionados à resposta a uma possível emergência sanitária naquele território britânico do Atlântico Sul.

Argentina cita resolução das Nações Unidas

A chancelaria argentina também acusou o Reino Unido de contrariar a Resolução 31/49 da Assembleia Geral das Nações Unidas, adotada em 1976.

O documento pede que Argentina e Reino Unido se abstenham de tomar decisões que introduzam mudanças unilaterais na situação das Malvinas enquanto a controvérsia permanecer submetida ao processo de negociação recomendado pela ONU.

Buenos Aires interpreta a presença militar britânica, a exploração de recursos naturais e a concessão de licenças econômicas nas ilhas como alterações unilaterais incompatíveis com essa resolução.

O Reino Unido rejeita essa interpretação, sustenta sua soberania sobre o arquipélago e afirma que o futuro político das ilhas deve ser determinado por seus habitantes. A Argentina argumenta que a população atual foi implantada pelo poder ocupante e que o princípio aplicável é o da integridade territorial, não o da autodeterminação.

As Nações Unidas reconhecem formalmente a existência de uma disputa de soberania e, por meio do Comitê Especial de Descolonização, têm reiterado o pedido para que Buenos Aires e Londres retomem negociações destinadas a encontrar uma solução pacífica. A organização, porém, não estabeleceu que a soberania pertence definitivamente a uma das partes.

Episódio reacende tensão no Atlântico Sul

O protesto foi divulgado poucas horas depois da Argentina derrotar a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo de 2026. Durante a comemoração, jogadores argentinos exibiram uma faixa com a frase “Las Malvinas son Argentinas”, provocando reação do governo britânico e pedidos para que a FIFA investigasse a manifestação política.

A nota diplomática, contudo, já havia sido entregue dois dias antes da partida. A coincidência entre sua divulgação e o resultado do jogo ampliou a repercussão pública de um episódio que vinha sendo discutido desde a chegada do navio ao Chile.

O governo de Javier Milei reiterou que continuará reivindicando as Malvinas por meios diplomáticos. Apesar de procurar uma aproximação política e econômica com Londres, a administração argentina mantém a posição histórica do país sobre o arquipélago e suas áreas marítimas.

A Guerra das Malvinas, iniciada após a ocupação argentina das ilhas em abril de 1982, terminou com a derrota das forças de Buenos Aires. O conflito provocou a morte de 649 militares argentinos, 255 britânicos e três habitantes das ilhas.

Quatro décadas depois, a disputa permanece sem solução. A passagem de um patrulheiro relativamente pequeno, desarmado para operações de alta intensidade, foi suficiente para mostrar como qualquer movimento militar entre as Malvinas e o continente pode rapidamente assumir dimensão diplomática e estratégica.

Para Buenos Aires, o trânsito do HMS Medway representou uma incursão ilegal e uma quebra dos mecanismos de confiança. Para Londres, foi uma viagem logística legítima, protegida pelo direito internacional de navegação. A divergência sobre o que foi comunicado — e quando — está no centro do novo atrito entre os dois países.

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